Política

Filipe Barros usou mandato para pressionar órgãos que contrariavam interesses de Daniel Vorcaro

Filipe Barros usou mandato para pressionar órgãos que contrariavam interesses de Daniel Vorcaro
Publicado em
12/06/2026 às 22:11

A atuação do deputado federal Filipe Barros (PL-PR) em temas ligados ao Banco Master não terminou com o projeto de lei semelhante à chamada “Emenda Master”. Nos meses seguintes, o parlamentar paranaense passou a apresentar requerimentos e promover audiências envolvendo órgãos que analisavam processos centrais para o futuro da instituição controlada por Daniel Vorcaro, da disputa da Ambipar na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) às discussões sobre a liquidação do banco no Banco Central.

Reportagem publicada nesta quinta-feira (12) pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, mostra que Barros, hoje pré-candidato ao Senado pelo Paraná, acionou a CVM, o Banco Central e a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) durante a fase mais crítica da crise enfrentada pela instituição financeira.

A movimentação ocorreu depois da apresentação de um projeto de lei protocolado por Barros em novembro de 2024 para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A proposta reproduzia o conteúdo da chamada “Emenda Master”, apresentada anteriormente pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Segundo a Polícia Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero, a emenda de Ciro foi elaborada por pessoas ligadas ao banco. A ampliação da cobertura do FGC era apontada como uma medida que poderia beneficiar o modelo de captação da instituição. O projeto apresentado por Barros foi retirado de tramitação em fevereiro de 2025.

Questionamentos surgem durante caso Ambipar

Em junho de 2025, Barros apresentou requerimentos para ouvir o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, presidida pelo próprio deputado. A audiência ocorreu no mês seguinte, quando a autarquia analisava processos relacionados à Ambipar.

Segundo a reportagem, técnicos da CVM sustentavam que fundos ligados ao Banco Master, ao empresário Nelson Tanure e ao controlador da Ambipar, Tercio Borlenghi Junior, haviam atuado de forma coordenada em operações que contribuíram para uma valorização de 863% das ações da companhia entre junho e agosto de 2024.

A área técnica defendia a realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA), medida que poderia reduzir a concentração acionária dos grupos apontados no processo e alterar a estrutura de controle da empresa. João Pedro Nascimento acompanhou esse entendimento.

Além da audiência pública, Barros apresentou requerimento ao Ministério da Fazenda com 11 perguntas sobre a atuação da CVM no caso Ambipar. Os questionamentos foram protocolados enquanto a autarquia analisava a adoção da OPA defendida por sua área técnica.

A reportagem registra que Nascimento, amigo de infância do senador Flávio Bolsonaro e indicado por ele para a CVM durante o governo Jair Bolsonaro, disse a aliados que estava sendo ameaçado e citou o tratamento recebido durante a audiência realizada na comissão presidida por Barros. Dez dias após comparecer ao colegiado, deixou a presidência da autarquia antes do término do mandato.

Previc e BTG entram na mira

Às vésperas da audiência, Barros também protocolou requerimento envolvendo a Previc. O documento questionava a participação do dirigente da autarquia em processos relativos ao BTG Pactual enquanto o irmão dele ocupava cargo na área de investimentos do banco de André Esteves.

Segundo a reportagem, o BTG era considerado um dos principais concorrentes do Banco Master antes da liquidação da instituição.

Conflito chega ao Banco Central

Em 3 de setembro de 2025, data em que o Banco Central rejeitou a operação de compra do banco pelo BRB, Barros apresentou requerimento direcionado à Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução (Diorf), área responsável por processos de intervenção, resolução e liquidação de instituições financeiras.

Segundo a reportagem, os questionamentos atingiram a estrutura comandada por Renato Gomes, integrante da ala do Banco Central favorável à liquidação da instituição.

A apuração descreve uma divisão dentro do BC. Renato Gomes e o então diretor de Regulação, Gilneu Vivan, defendiam a liquidação. Já o diretor de Fiscalização, Aílton Aquino, sustentava a compra do banco pelo BRB como alternativa.

A reportagem também relaciona a atuação de Barros ao período em que assumiu a presidência da Comissão de Relações Exteriores após o afastamento de Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Em transmissão ao vivo citada por O Globo, Eduardo afirmou que continuaria influenciando a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara por meio de Filipe Barros. “Para quem acha que eu não estar sentado naquela cadeira, eu perdi o poder da CREDN, negativo”, declarou, em referência ao colegiado. Na mesma manifestação, disse que o aliado levaria adiante as pautas que pretendia conduzir.

À jornalista Malu Gaspar, Filipe Barros negou ter atuado em favor de Daniel Vorcaro ou da instituição financeira. Disse que nunca manteve contato com o banqueiro, afirmou que suas iniciativas decorreram de interesse em temas ligados à regulação financeira e sustentou que exerceu atividade legítima de fiscalização sobre órgãos públicos.

O deputado também declarou ter sido um dos primeiros parlamentares a denunciar irregularidades envolvendo o banco e defendeu a responsabilização dos envolvidos.

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