Política

Ratinho deixará dívida histórica na educação de jovens e adultos

Ratinho deixará dívida histórica na educação de jovens e adultos
Publicado em
30/06/2026 às 13:26

Desde 2019, quando o Ratinho Junior (PSD) assumiu o Governo do Paraná, o estado abandonou cerca de 4 milhões de jovens e adultos sem formação no ensino fundamental ou Ensino Médio. É o que mostram os dados do Censo Escolar dos últimos dez anos. De 2019 a 2025, 90 mil vagas da educação de Jovens e Adultos foram excluídas da rede estadual de ensino. Foi a maior exclusão entre todas as redes de ensino do estado. Nas escolas privadas e municipais, foram extintas cerca de 6,6 mil vagas nessa área.

O Censo Demográfico de 2022 do IBGE contou 4.027.128 paranaenses com 18 anos ou mais que não concluíram o ensino médio — 45,8% de toda a população adulta do estado, quase um em cada dois. Desse total, 2.702.731 não têm nem o ensino fundamental completo.

São esses adultos o público-alvo da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2025, o Paraná oferece vagas na EJA para 75.543 deles. Menos de 2% do total. E esse número caiu mais da metade desde que o governo atual assumiu.

A maior retração entre todas as redes

De 2019 a 2025, a rede estadual de ensino excluiu 90.054 vagas de EJA, passando de 125.881 para 35.827 matrículas — uma redução de 71,5% em seis anos. Foi a maior retração entre todas as redes de ensino do estado. No mesmo período, redes privadas e municipais juntas extinguiram cerca de 6,6 mil vagas — queda de pouco mais de 10%.

No ensino noturno, o recuo foi na mesma proporção: 127.175 vagas eliminadas, reduzindo o total de 210.128 para 82.953 matrículas na rede estadual. O noturno é uma oferta essencial para conter a evasão de jovens que começam a trabalhar e precisam conciliar emprego e escola.

ModalidadeMatrículas 2019Matrículas 2025Queda
EJA — rede estadual125.88135.827−71,5%
EJA — total (todas as redes)172.18575.543−56,1%
Ensino noturno — rede estadual210.12882.953−60,5%

Fonte: Censo Escolar, Paraná, 2019–2025.

A lógica invertida a partir de 2019

Os dados do Censo Escolar mostram que a oferta para esse público vinha crescendo. De 2015 para 2019, o Paraná saiu de 143.396 vagas para 172.185 vagas de EJA em todas as redes — crescimento de quase 20% em quatro anos. A partir de 2019, a lógica se inverteu.

Já em 2021, o número de matrículas na EJA caiu para 114.388. No Censo de 2025, chegou a 75.543 — menos da metade do que havia seis anos antes.

AnoEJA total (PR)EJA FundamentalEJA Médio
2015143.396
2019172.185106.63765.548
2020144.91991.67853.241
2021114.38867.88346.505
202295.29557.81837.477
202379.97350.62429.349
202481.70953.16128.548
202575.54349.24226.301

Fonte: Censo Escolar INEP, todas as redes, Paraná.

No acumulado entre 2020 e 2025, o Paraná deixou de oferecer 441.283 vagas de EJA em comparação ao que teria sido ofertado se o patamar de 2019 tivesse sido mantido.

1,9% do público que precisa — e 50 anos para zerar a fila

A oferta de EJA cobria 4,3% da população adulta sem educação básica em 2019 — já uma fração pequena. Em 2025, atende apenas 1,9% dessa demanda.

EtapaAdultos sem conclusão (IBGE 2022)Matrículas EJA 2025Taxa de atendimento
Ensino Fundamental2.702.73149.2421,8%
Ensino Médio1.324.39726.3012,0%
Total4.027.12875.5431,9%

Fonte: IBGE Censo Demográfico 2022; Censo Escolar INEP 2025.

Ao ritmo atual de matrículas, o Paraná levaria 55 anos para atender todos os adultos sem ensino fundamental — e 50 anos para os sem ensino médio. Isso supondo que nenhum novo adulto entrasse no grupo e que cada matrícula resultasse em conclusão imediata. Na prática, alunos da EJA costumam levar dois a quatro anos para concluir uma etapa, o que piora o cálculo.

O fechamento vai na contramão da demografia

O fechamento de vagas da EJA vai na contramão dos dados populacionais. A queda nas matrículas do ensino regular — fundamental e médio — tem uma explicação demográfica: o Paraná tem menos crianças e adolescentes do que tinha em 2010. A população de 10 a 14 anos caiu 10% entre os dois censos; a de 15 a 17 anos caiu 9,5%.

O público da EJA é diferente: são adultos. E a população adulta do Paraná cresceu — de 6,2 milhões para 7,6 milhões entre 2010 e 2022. O número de adultos sem educação básica diminuiu, mas lentamente: queda de 15,2% em 12 anos para os sem ensino fundamental; de 8,0% para os sem ensino médio.

GrupoCenso 2010Censo 2022Variação em 12 anos
25 anos ou mais sem EF completo3.059.0252.594.515−15,2%
25 anos ou mais sem EM completo3.995.1583.673.882−8,0%

Fonte: IBGE, Censo Demográfico.

A queda na EJA é mais de seis vezes mais rápida do que a redução no público que ela deveria atender. A queda de 56% nas matrículas de EJA não tem explicação demográfica. Ela reflete uma escolha de onde alocar — ou não alocar — recursos.

O IDEB no limite

Junto ao corte de vagas para estudantes trabalhadores, os dados da rede estadual mostram que a fórmula de aumento do IDEB está chegando ao limite. Como o Plural já noticiou, o avanço dos índices do Paraná — de 3,7 em 2017 para 4,7 em 2023 no Ensino Médio, colocando o estado em segundo lugar entre as redes estaduais — foi impulsionado quase que exclusivamente pelo aumento da taxa de aprovação.

No período, as notas de Matemática e Português das escolas estaduais do Paraná ficaram praticamente estagnadas: a média em Matemática caiu de 280,8 pontos em 2019 para 278,0 em 2023; em Português, subiu de 281,0 para 283,8 — menos de três pontos em uma escala de centenas.

O que subiu foi a aprovação: de 80,1% em 2017 para 96,9% em 2023 — praticamente todos os alunos passando de ano, mesmo sem avanço mensurável nas notas.

AnoAprovação EM estadualAbandonoReprovaçãoSAEB MatemáticaSAEB Português
201780,1%7,8%11,6%
201989,0%3,4%7,4%280,8281,0
202195,8%1,3%2,5%
202396,9%0,7%2,5%278,0283,8

Fonte: Indicadores Educacionais INEP (aprovação/abandono/reprovação); SAEB/INEP (notas).

A aprovação em alta, a EJA em baixa e a distorção idade-série em queda formam uma arquitetura coerente para produzir indicadores positivos — sem que isso signifique mais aprendizado real para os alunos atuais ou mais oportunidades para os 4 milhões de adultos com escolaridade incompleta.

O passivo de 2027

Para quem for assumir o governo do Paraná em 2027, ficarão dois passivos entrelaçados.

O primeiro: 4.027.128 jovens e adultos sem educação básica completa, atendidos por uma rede de EJA que encolheu 56% em seis anos e que, ao ritmo atual, levaria meio século para zerar a fila.

O segundo: cerca de 299 mil estudantes no ensino médio da rede estadual — projeção baseada na tendência de 2022 a 2025, que aponta queda de 12.500 alunos por ano —, cuja formação ficou estagnada por oito anos em termos de aprendizado medido. Em 2013, a rede estadual tinha 411.299 alunos no ensino médio; em 2025, 319.062; em 2027, a tendência aponta para menos de 300 mil.

Aprovar mais não formou mais. E a EJA que poderia dar segunda chance a quem ficou de fora foi, ao longo do governo atual, sistematicamente desmontada.

Nota metodológica: Matrículas EJA e ensino noturno extraídas do Censo Escolar INEP. Dados populacionais: IBGE, Censo Demográfico 2010, classificação por nível de instrução. Taxas de aprovação, abandono e reprovação: Indicadores Educacionais INEP, média das escolas estaduais ativas do Paraná. Projeção de matrículas do EM para 2027: regressão linear sobre a série 2022–2025, tendência de −12.542 alunos/ano. O déficit acumulado de vagas de EJA (441.283) foi calculado como a soma das diferenças anuais entre as matrículas reais e o patamar de 2019, de 2020 a 2025.

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